Pesados os prós e os contras, feitas as contas, ao longo de 40 anos, FERNANDO GOMES é o genuíno e legítimo representante do Fado que houve e ainda há na mui nobre e invicta cidade
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Fernando Gomes interpreta "Adeus até logo" de Luciano Teixeira - Santos Moreira

Os que ao sonho deram brado
E nasceram nesta foz,
Levaram dedos e voz
Pra Lisboa, mãe do Fado.


Decorria o ano de 1968 e havia pelo menos três anos que eu frequentava assiduamente o retiro fadista da Candeia. Numa das madrugadas, porque algo na minha vida amorosa não corria bem, sentei-me num recanto isolado, tão só disposto a beber uns copos de tintol e a ouvir fado. Estava uma daquelas noites sem conspícua audiência, morta de todo. O Almeida, antes que descesse à cave para afagar a sua habitual meia-branco de Casal Garcia, ao passar pela portaria, convidou o polícia para tomar um copito e ouvir um fadinho.

O Fernando Gomes foi cantar e nessa ocasião, de olhos fechados, estive a ouvi-lo atenta e gostosamente. A guitarra do Álvaro Martins gemia nostálgica e os bordões do Mário Lopes crepitavam compassantes. A dado passo, as palavras sentimentalmente entoadas quedaram-se em suspensão e encrustaram-se-me no cérebro para sempre: "Ando sem luz no caminho / Sem afagos, sem carinho / Ninguém ouve a minha queixa... / O vento calou-se agora / E na tisteza desta hora / Até o vento me deixa...".

Desde aí, ao longo dos anos, sempre que para tal houve ensejo, nas dezenas de locais onde o Fernando trabalhava e eu ia ouvi-lo, lá estava também eu a pedir-lhe: - Ó Nando, canta aquela do "até o vento me deixa". Depois de acertar pessoalmente com Fernando Gomes os pormenores referentes a esta verídica faceta, eis o comovente e incisivo poema de amor mal sucedido.


Disse-te adeus por engano,
Passam meses, morre o ano,
Tanta saudade, meu Deus...
Não pode haver mais tristeza
Que trazer a vida presa
À tristeza de um adeus...

Já não tenho onde me acoite,
Ando a vaguear na noite,
Grito e ninguém me responde...
Só ouço gemer no vento
Baladas de sentimento
Que o vento traz não sei donde...

Ando sem luz no caminho,
Sem afagos, sem carinho,
Ninguém ouve a minha queixa...
O vento calou-se agora
E na tristeza desta hora
Até o vento me deixa...

Já lá vem o sol, regressa,
Volta que eu faço a promessa
De te mostrar novos céus...
Meu amor, podes voltar
Que enquanto a vida durar
Nunca te direi adeus...

Autor: Moita Girão


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